UMA POLÍTICA DE 6 MINUTOS

pelo jornalista e historiador Abel Cardoso Junior (1938-2003)

Não se pode confundir o sucesso pessoal e único de Carmen Miranda nos Estados Unidos com a chamada "Política de Boa Vizinhança" do governo Roosevelt. Querem alguns que Carmen tenha sido ajudada pelos órgãos oficiais americanos, no sentido de criar um clima favorável aos interesses de Washington, por questões de mercado, fornecimento de matéria prima, devido à guerra.

Não é verdade. A viagem de Carmen aos Estados Unidos originou-se de contrato que assinou com o empresário particular Lee Shubert, para trabalhar numa de suas muitas revistas teatrais. Um contrato para a América era de há muito como que uma oportunidade lógica à fama brasileira e sul-americana de Carmen. Até que aconteceu tardiamente.

Shubert fez questão de vê-la atuando na Urca, recomendado por seus agentes. Mesmo gostando, Mr. Shubert afagava dúvidas quanto às vantagens de importar uma artista que não falava inglês. Valeu nessa hora a insistência de Sonja Heine. Houvesse a "Boa Vizinhança" e Shubert não se teria recusado a levar o "Bando da Lua". A muito custo contratou 3 elementos, ficando os outros 3 por conta de Carmen. E não pagou sequer as passagens, que foram dadas pelo D.I.P., a pretexto do conjunto atuar no pavilhão brasileiro da Feira Mundial de Nova York. Em terras americanas, os rapazes sentiram a oposição da Ordem dos Músicos, tendo que usar o artifício de se apresentar como um "número" e não como músicos.

Para Carmen,Shubert reservou um dos quadros da revista com a duração de 6 minutos. Em 6 minutos, cantando trechos de músicas brasileiras, acompanhada do "Bando da Lua", Carmen, uma ilustre desconhecida, tinha toda a sua chance americana. Seis minutos foram o bastante para Carmen. Um espanto. Ou devemos acreditar que os aplausos frenéticos, semana após semana, fossem subvencionados por Mr. Roosevelt?


Em outubro de 1940, Carmen volta
para os Estados Unidos, após algumas
semanas de permanência no Brasil.

As apresentações de Carmen na Feira Mundial também não representaram nenhuma concessão. Sessenta nações de todo o mundo participaram, com suas canções regionais. O público ia ver Carmen. Atuando na Feira e na Broadway salvou esta da concorrência daquela.

De repente uma celebridade. Tinha que despertar os magnatas do cinema. Estava feita perante o público. Não era mais um risco.

Essa "boa vizinhança", por sinal, não favoreceu outros brasileiros, embora muitos se abalassem até os Estados Unidos, na esperança de trilhar os mesmos caminhos de Carmen. Alguns deles, apoiados na esteira de seu prestígio puderam ter acesso ao ambiente artístico americano. Nenhum, porém, ao plano da popularidade.

Já em 1939 o cantor Cândido Botelho inventou uma vestimenta de marroeiro, rumou para os "States", ameaçou um brilhareco e sumiu. Em 1938, até antecipando-se à Carmen, vestida de baiana, cantou na NBC a nossa Laura Suarez. Roosevelt recebeu-a na Casa Branca.

Bem que os empresários americanos gostariam que se reproduzisse o fenômeno Carmen. Em 1941, para apreciar talentos, chegava ao Brasil o empresário Sol Shapiro. Talvez, não lhe tivessem dito que como Carmen não havia outra nem no Brasil.

Alega-se também que o êxito americano de Carmen era um expediente para a conquista das platéias brasileiras e latinas em geral. Com a guerra Hollywood perdera o mercado europeu do filme e precisava do sul-americano como compensação.

Ora, Carmen chegou aos Estados Unidos 2 anos antes da entrada dos E.U.A. na guerra. Quando a guerra começou já estava famosa. Quanto ao mercado de filmes, desde o princípio foi dominado pela indústria americana. Mesmo os nossos poucos filmes dessa época eram distribuídos por empresas americanas, aqui mesmo no Brasil. Nada havia a conquistar. E não seria o filmezinho anual de Carmen em Hollywood, malgrado o êxito de bilheteria, que viria a alterar a receita. E, se alterasse, então Carmen não seria apenas uma artista de cinema. Seria a própria indústria, seria sozinha uma Hollywood.





Texto extraído do livro      
"Carmen Miranda - A Cantora do Brasil"      
de Abel Cardoso Junior      
Edição Particular do Autor - 1978