pelo jornalista e historiador Abel Cardoso Junior (1938-2003)Em 1939, houve mais um concurso oficial para a escolha das melhores músicas de carnaval, patrocinado pela Prefeitura do Distrito Federal.
A apresentação decorreu na Feira de Amostras.
Apenas para informação daqueles que pensam ser privilégio de Woodstock as multidões em torno de espetáculos musicais, transcrevo trechos do "Correio da Manhã", de 5-1-1939.
"FESTA DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. EXPOSIÇÃO DO ESTADO NOVO. FEIRA DE AMOSTRAS.
Que coisa séria, a noite de ontem no recinto da Feira de Amostras! Como que toda a população do Rio para ali afluís-se!
Os cantores vinham chegando, um a um, depois de tremendos sacrifícios. Era quase impossível atravessar a massa popular, que tomava todas as entradas. Carlos Galhardo suava por todos os poros quando entrou no palco, por uma porta dos fundos. Francisco Alves tinha a roupa completamente amarrotada. Almirante aguardava a chegada de Carmen Miranda, para cantar com ela "Boneca de Piche". Mas a popular cantora não aparecia. O povo lhe aclamava constantemente o nome. Um cavalheiro foi ao microfone e pediu ao povo que desse passagem a Carmen Miranda, a qual ainda não chegara, porque não conseguira romper a multidão. Nervoso, Ary Barroso passeava de um lado para outro, receoso de que sua canção não pudesse ser executada. Afinal, apareceu a criadora de "Tá i". Veio com sua irmão, Aurora Miranda. Foram imediatamente cercadas pelos amigos e admiradores, aos quais narraram a odisséia daquela marcha penosa através da massa popular.
Desde cedo, as "borboletas" da Exposição do Estado Novo. rodavam constantemente. O movimento começou pouco depois do meio-dia. E, antes das 10 horas da noite, haviam registrado mais de duzentas mil entradas.
E maior foi ainda a alegria popular, quando Batista Júnior, que servia de "speaker", anunciou o aparecimento de Carmen Miranda, a qual cantou "Boneca de Piche", de Ary Barroso, fazendo dupla com Almirante."
• "Carmen Miranda, "a garota notável", teve mais uma prova do prestígio que adquiriu entre nós. Quando aparecia no palco, com aquele sorriso moreno, todo feito de "it", o teatro parecia vir abaixo, tais os aplausos que irrompiam de todos os lados. Gente das "torrinhas", dos balcões, das poltronas e das frisas, todo mundo se confundia no mesmo entusiasmo, na mesma manifestação de simpatia à brilhante embaixatriz da nossa música popular.
Quantas vezes Carmen vier a Campinas, pode contar com um público numeroso. O nosso povo sabe selecionar valores e vê, com toda a razão, em Carmen Miranda, a legitima intérprete da música popular brasileira.
"Por último, sob uma calorosa salva de palmas, surgiu Carmen Miranda, toda sorridente e amável. Com muita desenvoltura, o que não é natural numa artista de rádio, deliciou-nos com a interpretação de "Na Pensão de Dona Esteia", "E o Mundo Não se Acabou", "Salada Mista", e outras consagradas músicas carnavalescas.
Na segunda parte, apareceu com um riquíssimo vestido de baiana, e em parceria com Almirante, interpretou um samba inspirado em motivos da "boa terra", que foi reprisado, devido aos insistentes aplausos populares.
Encerrando o programa, Carmen e Almirante cantaram o maior sucesso musical destes últimos meses "Boneca de Piche", o sambinha eletrizante.
Essa dupla inconfundível fez ainda uma curiosa demonstração da nova dança que está revolucionando o Rio — "Pirolito".
Apesar de ter recebido uns arranhões em conseqüência do desastre automobilístico que sofreu, pouco antes do espetáculo, Carmen dançou o "Pirolito" como "manda o figurino", introduzindo assim, oficialmente, em Campinas essa nova dança."(CORREIO POPULAR, Campinas SP, 31-1-39, página 3)
Carmen Miranda excursionando com Almirante em São Paulo (1939)
Texto extraído do livro
"Carmen Miranda - A Cantora do Brasil"
de Abel Cardoso Junior
Edição Particular do Autor - 1978