POVO CARIOCA RECEBE CARMEN — 10-7-1940

pelo jornalista e historiador
Abel Cardoso Junior
(1938-2003)

• "Carmen Miranda atravessará a avenida em carro aberto. Com aquela pimenta no olhar, aquele mel de engenho na voz, toda aquela perdição na "carrosserie" e aquela pergunta "Que ê que a baiana tem", a pequena dos sambas e das marchinhas tomou conta na verdade das bilheterias e das páginas inteiras de revistas americanas" (Jornal "Diário de Notícias", 8-7-1940, página 2)

• "RECEPÇÃO FESTIVA À "EMBAIXATRIZ DO SAMBA".
Preparam-se expressivas homenagens à chegada de Carmen Miranda.

Após um ano de ausência desta capital, Carmen Miranda, a "embaixatriz do samba", regressa ao Rio, no próximo dia 10, viajando pelo "Argentina".

A festejada cantora brasileira reaparecerá ao palco carioca realizando, na Urca, segunda-feira, dia 15, um espetáculo em benefício da "Cidade das Meninas", com um repertório inédito, além de numerosas canções, em inglês, tiradas do seu filme "South American Way".

A direção do Cassino da Urca, que já vendeu cerca de 700 lugares, resolveu dar uma ornamentação especial ao "grill", decorado por um de nossos melhores artistas.

Uma delegação de artistas, escritores e publicistas, em um

movimento de aplausos a Carmen Miranda pela sua brilhante atuação no teatro e broadcasting americanos, prestarão de público uma homenagem à irmã de Aurora Miranda.

O belo festival do dia 15 do corrente constituirá uma parada de elegância, com a participação do mundo oficial e de nossa sociedade, em um espontâneo movimento de aplausos à campanha social da Sra. Darcy Vargas, que estão prestigiando a iniciativa da ilustre dama.

O traje será a rigor, custando, cada ingresso, a importância de cento e dez mil réis, inclusive os impostos.

Carmen Miranda por ocasião do seu desembarque, na Praça Mauá, terá uma grandiosa recepção. Várias bandas de música se farão ouvir.

Quando o "Argentina" ainda estiver ao largo, representantes de todas as classes culturais do Brasil irão a bordo apresentar suas saudações à apreciada cantora". (Jornal "O Globo", Rio 6-7-1940, página 7)

CARMEN MIRANDA VOLTOU MAIS BRASILEIRA — RECEPÇÃO TRIUNFAL — SUAS PRIMEIRAS PALAVRAS PARA O GLOBO — NA AVENIDA RIO BRANCO — A FESTA PARA A "CIDADE DAS MENINAS" E O ELOGIO PARA A OBRA DA SRA. DARCY VARGAS

A chegada de Carmen Miranda, à tarde de ontem, atraiu ao cais da Praça Mauá uma verdadeira multidão, calculada em milhares de pessoas. Prevendo, desde cedo, a enorme afluência pcpular, o Touring Club do Brasil fez instalar mais uma borboleta suplementar, para poder dar vazão à massa do povo que começou a chegar, desde meia hora depois do meio-dia.

O velho "Bicho da Seda", aquele palanque recoberto por uma tela de lona semi-circular, ressuscitou ontem, emprestando ao local um ar de solenidade dos grandes dias.

O policiamento interno foi grandemente reforçado, sendo feito pela Guarda Civil um forte cordão de isolamento, que a muito custo mantinha a multidão à distância da prancha de desembarque, que ficou situada num espaço aberto.

De instante a instante novas ondas de povo vinham chegando, o que tornava cada vez mais dificultosa a movimentação dos repórteres e dos fotógrafos dos jornais, que faziam verdadeiros atos de acrobacia para conseguir romper por entre o povo, e se aproximar da escada de bordo...

Quando o "Argentina" apontou na curva da Ilha das Cobras, um movimento geral de atenção se observou.

As portas do Armazém de Bagagens foram fechadas, tal a multidão, que querendo fugir da praça Mauá, tentava alcançar o cais, utilizando-se de todos os portões disponíveis. O mesmo ocorreu, também, com o portão situado entre os armazéns 1 e 2, fechados, desde cedo.

A esse tempo, uma cena completamente diferente se observava a bordo do "Argentina". Nunca os jornalistas experimentaram tanta dificuldade de trabalhar. Carmen Miranda, mal podíamos distingui-la — em meio da multidão que a rodeava — era impedida de falar aos profissionais da imprensa que, no exercício de sua missão, queriam ouvir algumas palavras da artista para transmiti-las ao público.

VESTIDA COM AS CORES DO BRASIL
Mas Carmen acedeu com prazer em conversar com os jornalistas e posar para os fotógrafos de todos os jornais cariocas. Estes queriam uma pose assim, outra sentada, outra de pé, acenando com as mãos, numa saudação. Ela se prestava a tudo, com um sorriso nos lábios.

Carmen Miranda trajava um vestido esquisito, de uma fazenda esquisita. Verde, como as nossas florestas, amarelo, do losango da bandeira nacional, ela vestia legitimamente à brasileira. Na cabeça um turbante, ainda verde e amarelo, daqueles que tanto sucesso alcançaram nos Estados Unidos. Não faltaram também os

"balangandãs" amarelos cor de ouro. Nacionalista cem por cento, vestindo as cores do Brasil.

Ela começou a falar, ansiosa em transmitir a um jornalista a sua saudação:

UMA "BAHIANA" FILMANDO EM HOLLYWOOD
— Não sei que palavras devo empregar, para exprimir a minha satisfação... As saudades são tantas, acumuladas neste ano inteirinho de ausência do Rio... Mas volto satisfeita. .. Afinal de contas, fiz um grande sucesso, não é?

Confirmamos com um aceno de cabeça. Ela continuou:
— Viajamos pelos Estados Unidos. Fomos até ao Canadá... E estivemos em Hollywood. Oh, sim, em Hollywood.

— Filmou? — interrogamos.

— Propriamente não. Apenas apareci ligeiramente no "Down Argentine Way". Eu lhe conto. Queriam a todo custo que eu integrasse o "cast" daquela película. Fiz muitas exigências. Aceitava com a condição de cantar na língua da minha terra, uma canção do Brasil, vestida de baiana. Assim foi. Pela primeira vez, uma autêntica manifestação da alma popular do Brasil surgiu tal como é na realidade, num filme de Hollywood.

— Mas...

Como que adivinhando o nosso pensamento, ela acrescenta logo:
— Realmente, quando voltar aos Estados Unidos, cumprindo um contrato daqui a dois meses, é possível que se pense em fazer um filme. Será sobre o Brasil e provavelmente serão obtidas cenas aqui mesmo no Rio de Janeiro... Mas isto é um projeto do futuro... que eu mesma nem sei quando vai ser concretizado. Talvez, quando eu souber melhor falar inglês, pois será um "all talking picture", todo em inglês.

CARMEN SAÚDA OS FÃS
Não foi mais possível trocar uma palavra com Carmen Miranda. Uma multidão arrebatou-a do convívio dos jornalistas.

O "Argentina" já se aproximava do cais, puxado pelo "São Paulo", o possante rebocador que fazia as manobras de atracação.

No cais a multidão se comprimia, num impulso natural de cada qual conseguir um lugar melhor ao sol. Todos queriam ver a embaixatriz do samba.

O navio está a poucos metros de distância. Um microfone,

amarrado a um cabo, é atirado para bordo. No "deck" inferior, com muita dificuldade, ele é apanhado. O povo já distinguiu Carmen Miranda e prorrompe numa gritaria infernal.

César Ladeira dirige a irradiação, de bordo mesmo do "Argentina", bem na proa do navio. Carmen pronuncia as primeiras palavras para os cariocas.

Foi muito emocionada que ela começou:

— Povo carioca... estou muito satisfeita. Mais ainda pela manifestação que vocês estão fazendo.

Ela a custo prossegue, interrompida aqui e ali, pelos aplausos da multidão.

A transmissão continua, mas Carmen já não está mais no "deck". Sempre acompanhada por um funcionário da Mayrink Veiga, ela desapareceu.

NA AVENIDA
Lá embaixo, o povo recomeça as manifestações, desta vez mais freneticamente. Carmen Miranda aparecera no alto da prancha, tendo nas mãos um ramo de "cicken", aquela flor alemã, transplantada para Petrópolis. Os cordões de isolamento são rompidos. Um tumulto

indescritível dificulta a passagem de Carmen. Ela não pode alcançar a "baratinha" creme que a espera. Foi quando a intervenção providencial do tenente Euzébio de Queiroz resolveu a situação. Agarra-a fortemente pela cintura e, abrindo caminho entre o povo, leva-a até o carro, que começa lentamente a andar. Batedores da Inspetoria de Tráfego precedem o carro, que vai caminhando até o portão do Armazém 2 do cais do porto. E, depois, o desfile triunfal pela Avenida. Confeti, flores, serpentinas, como em pleno Carnaval. E, afinal, após discursos e ovações frenéticas, um minuto de repouso em sua residência, na Urca.

TRÊS MIL PESSOAS PAGARAM PARA VER CARMEN MIRANDA
Num impulso de curiosidade, o repórter foi até o Touring Club apurar a renda das borboletas (...) de Cr$ 3:024$000; 3.024 pessoas passaram pelas duas borboletas. Isto sem contar os que conseguiram penetrar clandestinamente...

BRASILEIRA CEM POR CENTO — A FESTA PARA A "CIDADE DAS MENINAS"
Ainda a bordo, alguém lembrou a exploração que se fez aqui em torno da nacionalidade de Carmen Miranda, a propósito de certas referências da imprensa norte-americana que, às vezes, a apresentava como cantora


"O maior acontecimento do ano" na recepção à Carmen Miranda
em sua volta ao Rio (Revista Careta, 20 de julho de 1940)
portuguesa.

Carmen acha ridículo e explica:
— Sou brasileira cem por cento. E a primeira coisa que farei, de útil, no Rio, é cantar para a "Casa das Meninas", em apoio à grandiosa obra de assistência social promovida pela Sra. Darcy Vargas. (Jornal "O Globo", Rio 11-7-1940, página 2)

• "O samba voltou de verde e amarelo, enfeitado de balangandãs fabricados em Nova York. Arrastou cinco mil pessoas ao delírio. O Touring ganhou mais de três contos nas "borboletas".

O cais do armazém 2 parecia feito de cabeças. Quando Carmen Miranda apareceu na amurada do "Argentina", tinha-se a impressão que o mundo vinha abaixo. Os cordões de isolamento rompiam-se como serpentinas. O portão do armazém de bagagens foi arrombado e os guardas "sambaram" para conter o povo que se precipitou em avalanche. Lembramo-nos dos diques da Holanda.

A garota dinamite, os olhos grandes voltados para o cais, deixou escapar apenas uma frase: "Ah! meu povo! Você ainda é o melhor do mundo!"
(Revista "O Cruzeiro", Rio 20-7-1940, página 38)

"O MAIOR ACONTECIMENTO DO ANO. A "Rainha do Samba" teve a maior recepção que já foi prestada a uma personalidade ilustre... Viva o samba"
(Revista "Careta", Rio 20-7-1940, página 20)

De fato, essa foi a maior recepção que UMA pessoa jamais teve no Brasil. As recepções aos futebolistas são para toda uma equipe. O Rio teve um dia de carnaval em julho.

Texto extraído do livro
"Carmen Miranda - A Cantora do Brasil"
de Abel Cardoso Junior
Edição Particular do Autor - 1978