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"As cortinas que velam o palco do Grauman's Chinese Theatre abrem-se, deixando ver seis rapazes sorridentes de "smoking": o Bando da Lua de Carmen Miranda, que tocam um número introdutório. Depois, o recinto ilumina-se com um milhão de "watts" de eletricidade humana chamada Miranda: saias alegres rodopiando, jóias cintilando, enfeites de cabeça como uma torre de Pisa em miniatura. Seu sorriso radiante abrange todo o auditório. Não tem pressa. Seu olhar vai do balcão à orquestra. Gosta do que está vendo e seu sorriso se acentua: "nize people... beaudifool... movveloos... I seeng you song from Brazeel" (gente boa, muito bonito, maravilhoso, eu vou cantar canções do Brasil).
Canta canções do Brasil e seu corpo canta com ela — olhos, mãos, quadris, pês — uma princesa saída duma frisa "aztec" com uma graça de pantera, plumagem duma ave do paraíso e os artifícios de Eva e Lilith combinados. Se o leitor já a viu, as palavras são desnecessárias. Se não viu, não sabe o que perdeu! Quando acaba de cantar recebe os aplausos com a alegria ingênua duma criança e arrasta sua orquestra para partilhá-los: My boys... seex fine boys... all singles... me singles too. Nize, hein?" (Meus rapazes... seis bonitos rapazes... todos solteiros... eu solteira também. Que bom, hein?). O auditório grita. "Now I seeng you song from "That Night in Rio..." (agora vou cantar-lhes uma |
canção de "Aquela Noite no Rio"). Põe as mãos uma sobre a outra e olha de lado...
"Yi, yi, yi, yi, yi, I like you very motch...". Tem mais alguma como ela no Brasil?
A resposta é negativa. Ela é só e única e estava meio descansada do Rio quando toda essa história começou".
Só a si própria deve seu sucesso; seu próprio senso criativo, o verdadeiro senso do artista pela originalidade. No cassino cantavam outras quatro ou cinco. "Se cantasse as mesmas canções do mesmo modo" — diz ela — "não adiantava. Precisava fazer algo diferente. Olhava para elas e via que nunca mexiam com as mãos quando cantavam. Eu canto também com os olhos e com as mãos, o que é muito melhor. E criei um estilo para mim. Danço o samba, que é uma dança típica do Brasil, porém estilizei-o". Tudo isso no seu inglês engraçado. "Moram numa casa alugada nas colinas de Westwood, perto do estúdio. Mamãe cozinha porque sabe como é que Carmen não gosta: quente e apimentado. Luíza, a criada que trouxeram, ajuda mamãe, ajuda Aurora e ajuda Carmen no seu camarim: conserta-lhe os vestidos. Não é que Carmen não goste das criadas americanas. Deus nos livre |
Carmen Miranda ao lado de um de seus automóveis (Beverly Hills, anos 1940)
| que alguém pudesse supor que há alguma coisa na América de que não goste. "Mas meu inglês!...", diz ela suspirando. Porém, arranja-se. Seu inglês, se não é fluente, é gráfico. Aprendeu-o indo ao cinema e lendo magazines. Se há uma coisa de que gosta mais do que tudo, é descansar. No palco está sempre tensa, nervosa, por isso, quando o deixa, entrega-se inteira, voluptuosamente, ao descanso. Dez horas de sono, um passeio antes do almoço de sucos de frutas e café, dez minutos de exercicio seguidos de um banho de sol. Depois poderá nadar ou guiar o auto. Não tem chofer e guia o seu "Cadillac" bege para se distrair. Mas, melhor do que tudo para ela, é ficar em casa, à vontade, escrever aos amigos, ler e fazer gostosos bolos.
Ela não é realmente diferente fora do palco. O rosto, a voz, a vivacidade não mudam. Mas o espetacular cede o lugar à simplicidade. Pele alva, cor de marfim, limpa de pintura. Usa só baton e um toque de máscara. "Tailleurs" ou "slacks" no seu tom favorito de marrom. Saltos de duas a três polegadas — no palco também — para aumentar-lhe a altura e porque são mais cômodos. Um turbante adaptado à cabeça. Nunca usa chapéu; mas tem muitos turbantes, todos em tons suaves de azul, cinzento e rosa. Só usa cores vivas no palco. Não usa jóias, ou, no máximo, um bracelete. O sorriso é o mesmo, produzindo a mesma |
Carmen Miranda no jardim de sua casa em Beverly Hills (anos 1940) |
sensação. Mesmo sem o seu esplendor bárbaro, é ainda Miranda.
Além disso, confessa ter duas paixões muito diferentes: a primeira é por perfumes; a segunda por "babies". Na sua casa de Copacabana (Urca), tem um móvel só para sua coleção de perfumes. "Je reviens" é o seu fraco.
— E vou dizer-lhes por quê. No Brasil tenho um apaixonado, não um grande apaixonado, mas um acomodado. Talvez esteja falando demais. E quando brigamos, ele manda um frasco de "Je reviens", desculpando-se.
Um "baby" é como um facho de luz para ela.
— A mãe olha para mim, julgando-me maluca. Mas não me contenho. Digo-lhe alô, "baby", e falo-lhe em português. Gosto especialmente dos meninos, pequenos... e grandes também — e acrescentou, depois dum momento: — E por que não?
Por que não, de fato? Pequenos ou grandes, estão lhe fazendo serenatas de uma costa à outra, com as suas próprias canções. Incomoda-lhe se nós, as moças, os acompanharmos? |
Yi, yi, yi, yi, we like you ve-rry motch. Yi, yi, yi, yi, yi we think you're grahnd"!
(Motion Picture, transcrito na Revista "O Cruzeiro", Rio 20-9-1941) |
Texto extraído do livro "Carmen Miranda - A Cantora do Brasil" de Abel Cardoso Junior Edição Particular do Autor - 1978  |