NOS PASSOS
DE
CARMEN MIRANDA


Menina do Rio

por RUY CASTRO

Muitos dos endereços de Carmen Miranda -onde ela morou, trabalhou e namorou- continuam de pé.

Carmen Miranda é uma paixão. De 1929 a 1939, dos 20 aos 30 anos, foi a maior estrela do disco, do rádio, do cinema e dos cassinos no Brasil. Quando se mudou para os EUA, naquele último ano, levou apenas alguns minutos para se tornar um grande nome da Broadway e, em seguida, de Hollywood. Foi então descoberta pelo mundo.

Tantos anos depois de sua morte -em Beverly Hills, aos 46 anos, em 1955-, as pessoas guardaram mais a

memória da Carmen internacional do que a da carioca e brasileira. E, só agora, no ano de seu centenário de nascimento, estamos repatriando a Carmen do samba e do Carnaval, que imprimiu a bossa na música popular brasileira e lançou compositores como Assis Valente, Synval Silva e Dorival Caymmi.

Seus novos fãs querem saber tudo sobre essa Carmen menos conhecida. E uma maneira de fazer isto -além de ouvir seus discos- é seguir seus passos pelas ruas do Rio, onde ela chegou aos dez meses de idade, em 1909, vinda de Portugal com sua família. Por sorte, muitos endereços onde Carmen

morou, trabalhou e namorou na Cidade Maravilhosa continuam de pé.

Começando pela zona portuária e terminando em Copacabana, o mapa e o texto seguem uma linha cronológica e geográfica. Taí -agora é só ir em frente.
1. Rua Santo Cristo,
     Zona Portuária


Ali ficava, nos anos 30, o estúdio da Odeon, onde a cantora gravou "Camisa Listada", "Uva de Caminhão" e tantos sucessos. Hoje, as ruas adjacentes, principalmente a Sacadura Cabral, voltaram a ser um point noturno do Rio e nelas pululam vibrantes gafieiras.

Vista aérea (fim anos 1920) da Rua Santo Cristo que contorna a igreja na zona portuária do Rio de Janeiro

Vista aérea (fim anos 1920) da Rua Santo Cristo que contorna a igreja na zona portuária do Rio de Janeiro
2. Rua Senhor dos
     Passos, 59 - Saara


O predinho onde Carmen morou de 1910 a 1912, quando muito criança -de um aos três anos- continua no mesmo lugar. Pena que em estado lamentável. É no complexo de ruas daquela parte do centro da cidade que está hoje a conhecida Saara (Sociedade dos Amigos e das Adjacências da Rua da Alfândega), formada por lojas que vendem uma infinidade de artigos a preços muito convidativos.

Fachada superior do predinho onde a família Miranda morou entre 1910 e 1912

Fachada superior do predinho onde a família Miranda morou entre 1910 e 1912
3. Rua da Candelária, 50
     (atual nº 94), Centro


Ela morou ali também, dos três aos seis anos, de 1912 a 1915. Só que esse sobrado foi restaurado e está lindo. Em 1914, Carmen caiu de sua janela no segundo andar. Mas não se machucou, porque aterrissou sobre um rolo de fios telefônicos.

Fotografia obtida no fim do século 19 na Rua da Candelária no Rio

Fotografia obtida no fim do século 19 na Rua da Candelária no Rio
4. Rua Mayrink Veiga,
     15 - Centro


Ali era a rádio Mayrink Veiga, que inventou tudo no rádio brasileiro na década de 30 e da qual Carmen foi a grande estrela (nem se falava ainda na rádio Nacional). Hoje, o prédio abriga outra empresa. Bem defronte, no outro lado da rua, ficava a primeira barbearia de "seu" Pinto, pai dela.
5. Travessa do Comércio, 13
     - Centro


É o endereço da famosa pensão de refeições de dona Maria, mãe de Carmen, onde moraram de 1925 a 1932. Está lá até hoje, mas é uma tristeza. Por ali, passaram vários estabelecimentos, nenhum deles digno da memória da cantora. O interior está completamente descaracterizado, e até uma placa na porta -onde se lia "Casa da Pequena Notável"- sumiu.

Vista da fachada do primeiro andar onde a família Miranda morava e a entrada da travessa pelo Arco do Teles na Praça XV de Novembro

Vista da fachada do primeiro andar onde a família Miranda morava e a entrada da travessa pelo Arco do Teles na Praça XV de Novembro
6. Rua do Ouvidor, 141
     - Centro


Ali, ficava La Femme Chic, a loja de artigos masculinos de Luiz Caruso, onde Carmen trabalhou como balconista em 1924 e recebeu seu primeiro salário.

Vista atual da Rua do Ouvidor. No detalhe, placa da esquina da rua onde Carmen Miranda morou com sua família.

Vista atual da Rua do Ouvidor. No detalhe, placa da esquina da rua onde Carmen Miranda morou com sua família.
7. Esquina da Rua do
     Ouvidor com a
     travessa do Comércio
     - Centro

É a igreja de N. Sra. da Lapa dos Mercadores, que a cantora, católica, frequentava quando morava na travessa do Comércio. Continua lá, pequena e acolhedora, como no tempo do Brasil Colônia.

O interior da igreja conserva o mesmo aspecto que Carmen Miranda teria apreciado quando a frequentava.

O interior da igreja conserva o mesmo aspecto que Carmen Miranda teria apreciado quando a frequentava
8. Rua do Mercado,
     quase esquina com a
     Ouvidor - Centro


Era o estúdio da Victor, primeira gravadora de Carmen. Foi onde ela gravou o "Taí (Pra Você Gostar de Mim)", em janeiro de 1930.

O estúdio ficava no primeiro andar do prédio à esquerda

O estúdio ficava no primeiro andar do prédio à esquerda
9. Rua Primeiro de
     Março, 95 - Centro


Endereço da principal barbearia de seu pai, montada com o dinheiro que ela ganhou com a gravação de "Taí".

Aspecto atual da Rua Primeiro de Março, no Rio

Aspecto atual da Rua Primeiro de Março, no Rio
10. Rua Gonçalves Dias,
       55 - Centro


Endereço de A Principal, outra loja de artigos masculinos, onde também trabalhou como balconista, quase em frente à Confeitaria Colombo (na imagem). Foi ali, em 1925, que ela conheceu Mario Cunha, misto de galã e remador do Flamengo, e seu namorado pelos sete anos seguintes.

Entrada da Confeitaria Colombo à Rua Gonçalves Dias, onde Carmen e Aurora costumavam ir para um chá com docinhos

Entrada da Confeitaria Colombo à Rua Gonçalves Dias, onde Carmen e Aurora costumavam ir para um chá com docinhos
11. Rua do Passeio
       - Cinelândia


O número 78 era o ateliê de costura da francesa Madame Anaïs, onde Carmen começou em 1923, como aprendiz. Depois, ali se instalou o cinema Plaza, hoje ainda de pé, mas desativado.

Prédio no estilo Art Déco do Cine Plaza na Cinelândia na década de 1950

Prédio no estilo Art Déco do Cine Plaza na Cinelândia na década de 1950



Na mesma rua (Rua do Passeio), no número 98, está o Instituto Nacional de Música (hoje Escola Nacional de Música) onde, em janeiro de 1929, Carmen canta num festival, organizado pelo baiano Aníbal Duarte e tendo como diretor musical o, também baiano, violonista e compositor Josué de Barros.

Prédio da Escola Nacional de Música próximo à Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro na Lapa

Prédio da Escola Nacional de Música próximo à Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro na Lapa



Também na mesma rua (Rua do Passeio), no número 38, se encontra o Cine Palácio, construído em 1906, hoje com o laminado de alumínio que escondia sua bela fachada retirado e todo restaurado, que Carmen frequentava.

O Cine Palácio à Rua do Passeio no centro do Rio e sua bela fachada recuperada

O Cine Palácio à Rua do Passeio no centro do Rio e sua bela fachada recuperada
12. Rua Joaquim Silva,
       53, casa 4 - Lapa


Dos endereços residenciais da estrela no Rio, é o único que já não existe. Ela morou ali dos seis aos dezesseis anos, de 1915 a 1925. Era uma casa de vila. Atualmente, é um hotel.

Bem ao lado da atual famosa escadaria Selaron e próxima aos famosos arcos da Lapa, a construção que sobrou do local onde Carmen Miranda passou sua infância

Bem ao lado da atual famosa escadaria Selaron e próxima aos famosos arcos da Lapa, a construção que sobrou do local onde Carmen Miranda passou sua infância
13. Rua André Cavalcanti,
       229 - Santa Teresa


Casa onde morou, no Curvelo, dos 23 aos 25 anos, de 1932 a 1934. Está lá até hoje, desocupada. Tem placa (no detalhe) na fachada registrando sua passagem.

Apesar da honraria (no detalhe) a casa hoje se encontra em péssimo estado de convervação, em local de difícil acesso

Apesar da honraria (no detalhe) a casa hoje se encontra em péssimo estado de convervação, em local de difícil acesso
14. Rua Silveira Martins, 12
       (atual nº 20) - Catete


Atualmente, é o hotel Inglez. De 1934 a 1936, era o prédio de apartamentos onde ela e sua família moraram no térreo, defronte aos jardins do antigo Palácio do Catete, hoje Museu da República.

Aspecto atual do prédio residencial, onde Carmen Miranda morou com a família, hoje transformado em hotel

Aspecto atual do prédio residencial, onde Carmen Miranda morou com a família, hoje transformado em hotel
15. Rua do Catete, 64
       - Catete


Nesse número, ficava a elegante sapataria do português Guedes, que fabricou seu primeiro par de plataformas, seguindo as especificações dela.

Rua do Catete com prédios antigos preservados e onde hoje existe grande concentração de lojas de calçados

Rua do Catete com prédios antigos preservados e onde hoje existe grande concentração de lojas de calçados
16. Rua Tavares Bastos
       - Catete


Morro onde, em 1926, ficava o estúdio de cinema de Paulo Benedetti, um dos primeiros do Brasil, em cujos filmes Carmen sonhava (em vão) trabalhar. Depois de décadas esquecido, o Tavares Bastos, que não tem tráfico nem traficantes, voltou a abrigar um importante pólo de cinema e audiovisual.

Pão de Açucar e Baía de Guanabara vistos do alto da Rua Tavares Bastos no Catete no Rio

Pão de Açucar e Baía de Guanabara vistos do alto da Rua Tavares Bastos no Catete no Rio
17. Praia do Flamengo,
       esquina com Rua
       Ferreira Viana
       - Flamengo


Ali fica (até hoje) o edifício Seabra, quase gêmeo do famoso Dakota, de Nova York. Carmen era grande amiga dos milionários Seabra, donos do prédio, e ia muito lá.

Vista atual do Edifício Seabra, no Rio

Vista atual do Edifício Seabra, no Rio
18. Av. João Luiz Alves, s/nº
       - Urca
-

Endereço histórico onde se instalava o Cassino da Urca, cuja identificação com a cantora, entre 1937 e 1940, é total. Quando o governo Dutra fechou os cassinos, em 1946, o belo prédio art déco passou décadas alugado à TV Tupi, que quase o destruiu. Está sendo restaurado agora pelo Istituto Europeo di Design, que já recuperou o prédio do lado da praia e fará o mesmo com o que fica junto ao morro. Será palco neste ano de uma exposição sobre Carmen. (Evento cancelado meses após a publicação desta matéria).

Aspecto atual da segunda ala do prédio que abrigou o Cassino da Urca a ser também restaurado pelo Istituto Europeo di Design. No detalhe seu visual antigo.

Aspecto atual da segunda ala do prédio que abrigou o Cassino da Urca a ser também restaurado pelo Istituto Europeo di Design. No detalhe seu visual antigo.
19. Av. São Sebastião,
       131 - Urca


Seu último endereço no Brasil, a partir de 1935. A casa, com placa na porta (no detalhe), tem agora novos proprietários. Eles são simpáticos, mas roga-se não incomodá-los.

A casa fica em rua atrás do Cassino da Urca, com andar superior atual incorporado ao prédio. Detalhe da placa em homenagem a Carmen Miranda.

A casa fica em rua atrás do Cassino da Urca, com andar superior atual incorporado ao prédio. Detalhe da placa em homenagem a Carmen Miranda.
20. Praça do Lido
       - Copacabana


Antigo Pavilhão Lido, que a jovem Carmen frequentava com seu namorado Mario, para dançar. Havia ali também um balneário, que ela e sua irmã Aurora -as duas já estrelas do disco e do rádio- usavam quando iam à praia em frente.

Vista da Praça do Lido nos dias atuais na Praia de Copacabana, Rio

21. Av. Atlântica, 1.702
       - Copacabana


É, naturalmente, o Copacabana Palace, em cujo cassino Carmen cantou, em 1935. Vinte anos depois, em 1955, em sua longa vinda ao Rio, ela passaria quatro meses hospedada em seu Anexo.

O Anexo do hotel está localizado na parte traseira do prédio, com vista para a Av. Nossa Senhora de Copacabana e a cidade

O Anexo do hotel está localizado na parte traseira do prédio, com vista para a Av. Nossa Senhora de Copacabana e a cidade
22. Av. Atlântica, 4.264
       - Copacabana


Ali, ficava o Cassino Atlântico, onde Carmen cantou e que serviu de inspiração para o cassino mostrado no filme "Alô, Alô, Carnaval!", de 1935, no qual as irmãs Miranda lançaram a marchinha "Cantoras de Rádio". O prédio, também uma joia art déco, foi demolido nos anos 70. Hoje é um hotel.

Imagem do extinto prédio do Cassino Atlântico na Praia de Copacabana, Rio

Imagem do extinto prédio do Cassino Atlântico na Praia de Copacabana, Rio
Ruy Castro é jornalista e escritor.
Autor do livro "Carmen - Uma Biografia"
Companhia das Letras, 2005

Matéria extraída da revista Serafina.
Suplemento do Jornal Folha de S.Paulo
São Paulo - 26 de Abril de 2009