PAGODÃO SUSSEXO: MÚSICAS DE DUPLO SENTIDO ROUBAM ESPAÇO DO AXÉ NA FOLIA DESTE ANO

Correio 24Horas
Salvador (BA), 24 de fevereiro de 2011

Banda Leva Nóiz e a Liga da Justiça: tema ligado ao imaginário e letra sugestiva são as chaves do sucesso

Bruno Villa | Redação CORREIO
bruno.villa@redebahia.com.br

Se na folia o Coringa cutuca: vai chorar é, negona? A Mulher Maravilha, então, foge foge com o Superman só para não tomar chupeta na boca e na bochecha. Na certeza de que o gosto pela esculhambação carnavalesca é a criptonita do baiano, os pagodeiros apostaram no sussexo das letras de duplo sentido para este ano.

O compositor Jota Teles, 31 anos, é o autor de duas das músicas mais tocadas às vésperas do Carnaval: Liga da Justiça (Mulher Maravilha), da banda Leva Nóiz, e Chora na Minha, do Saiddy Bamba.

O parto de Coringa, Pinguim, Lex Luthor e dos Superamigos começou pelo refrão. “Minhas letras são de duplo sentido. Compus primeiro o refrão porque o povo gosta de sacanagem”, explicou Teles. O povo adora, mas ele... “Não gosto de escrever (letras de duplo sentido), mas tenho que ser profissional”, confessou.


Tema ligado ao imaginário e letra sugestiva são as chaves do sucesso

Depois do foge foge, Jota quis mandar umas mensagens aos pagodeiros com a música. Segundo o compositor, os músicos estão muito desunidos. “Por isso falo em Superamigos. Antes saíamos mais, um emprestava dinheiro para outro...”, lamentou.

BA-VI INSPIRADOR
A inspiração para Chore na Minha foi o Ba-Vi do ano passado, quando o tricolor meteu 2x0 no rubro-negro. A ideia foi fazer pirraça. “Quando a pessoa perde a gente diz: ‘vai chorar, é? Então chore na minha!’”, contou.

Segundo Jota, que desde 1994 é compositor e este ano escreveu 38 canções, a expectativa é ganhar R$ 3 mil por mês, durante três anos, com os direitos autorais da Mulher Maravilha. “Recebo com os shows e quando a música toca no rádio e na TV”, esclarece.

HOMENAGEM
A negona que adora tomar chupeta é, na verdade, mestiça. Segundo o autor da música Chupeta, Márcio Victor, da Psirico, a canção é uma mistura de Carmen Miranda com Luiz Caldas. Depois que o rei do fricote pegou ela para passar batom cor violeta na boca e na bochecha, foi a vez do pagodeiro explorar o trocadilho.

“Chupeta nasceu pra gente fazer uma homenagem a Carmen Miranda, essa foi a minha intenção... O ‘gugu dada’ da canção é em homenagem a ela, que lançou o ‘Mamãe eu Quero’”, explicou.

Segundo a jornalista Danutta Rodrigues, autora do livro “Gostoso é até embaixo”, que conta a história das letras do pagode baiano, as composições ficaram mais escancaradas. “Na época do É o Tchan havia uma falsa ingenuidade. O duplo sentido dava sensação de inocência”, avaliou. Foi a partir da canção Na Boquinha da Garrafa, da Cia. do Pagode, que as letras ficaram explícitas. “As bandas somem mais rápido, porque se esgotam e logo aparecem outras”, diz.

Eles estão perdendo a pornopoética
O antropólogo Roberto Albergaria acredita que os pagodeiros estão perdendo a criatividade. Para Albergaria, aos poucos as letras de duplo sentido estão dando lugar às composições onde o sexo é abordado de forma totalmente escancarada. “Eles perderam a criatividade pornopoética. O pagode está perdendo o mais legal, o bom humor do duplo sentido com letras bem construídas”, avaliou.

Para ele, as composições abertamente sexuais mostram o esgotamento criativo do pagode. Mas o antropólogo, que se

declara um amante da pornofonia - mistura de música e “osadia” -, analisou o sussexo dos pagodes, explícitos ou não. “A maledicência é uma tradição baiana desde (o poeta) Gregório de Mattos. E o pagode é música para esculhambar”, conclui.