O FUTURO DO MITO CARMEN MIRANDA por Doni Sacramento (criador deste site) "Diamantes são eternos". O axioma já serviu de inspiração para virar título de filme e vender produtos ditos de ótima qualidade pela televisão. Surgem brutos na natureza e, após o processo de lapidação, seu alto valor se intensifica. Instigando o axioma numa análise maior, podemos rebater dizendo que nada é eterno. É óbvio que diamantes podem também, deliberadamente ou no mais trágico dos acidentes, ser transformados em pó. Como resultado, seu eminente valor estará imediatamente perdido. Tudo é questão de tempo em encontrar a interferência de um fator externo mais forte. Basta "alguém" querer ou, por descuido, deixar acontecer. Podemos concluir, então, que a fragilidade e desafio da preciosa pedra estão em ter que resistir ao tempo. E às pessoas. O coração agitado da locomotiva Carmen Miranda parou aos 46 anos de idade, na madrugada do dia 5 de agosto de 1955. A estrela estava sozinha. Vinte dias após o infortúnio, o esposo doou à prefeitura do Rio de Janeiro todo o material que podia dispor e que pertencia à famosa esposa. Seus tão conhecidos turbantes coloridos, trajes exóticos, sapatos de altíssima plataforma, inúmeros balangandãs e bijuterias, sua coleção de vidros de perfume. Tudo isso mais seus troféus e fotos já autografadas lotaram seus baús pessoais e viajaram para se instalar no país de sua dona. À época, fora o valor sentimental, o lote todo estava avaliado em 250 mil dólares! O material foi exposto no mês seguinte num pavilhão especial para o evento no Rio de Janeiro, no hoje desaparecido Palácio Monroe, com toda a pompa e circunstância. De quebra, o marido foi condecorado por seu nobre gesto pelo então presidente Juscelino Kubitschek com a Ordem do Cruzeiro do Sul, grande honraria, na presença de autoridades e dos mais famosos artistas da época em show ao vivo. Pasmos, anos depois os fãs da artista receberam a notícia de que tal "doação" teria sido feita em troca dos bens imóveis que a mesma possuía nos Estados Unidos para a família não os reclamar. Quando, no final de 1956, o Museu Carmen Miranda foi oficialmente criado no Rio de Janeiro, o vasto e precioso acervo ainda não possuía local para sua instalação. A idéia inicial era levá-lo definitivamente para o local onde Carmen havia passado da adolescência ao estrelato, a pensão de sua mãe no número 13 da Travessa do Comércio, no centro da cidade, junto à idéia de transformar o nome da pequena rua no de sua ilustre ex-moradora. Fatores políticos abortaram ambas idéias. E pelos próximos vinte anos, todo o material seria levado de lá para cá, de um lado a outro da cidade. Passou pelo Museu da Imagem e do Som, pelos depósitos da Fundação Estadual de Museus, pela Rodoviária Novo Rio, pelos porões do Teatro Municipal, além de ser constantemente disponibilizado para exposições itinerantes. Entre uma ida e vinda, artistas tinham acesso ao acervo e suas peças eram, sabe-se lá por quem, emprestadas a quem os pedia para shows e desfiles de carnaval. Além da idade e das inadequadas condições de preservação que sofriam, os trajes tinham o problema de ter sido original e unicamente feitos para filmes e shows. Não possuíam acabamento reforçado. O resultado era o de se esperar - quando devolvidas, e quando eram devolvidas, as peças, que não podiam ser lavadas, vinham danificadas no tecido e com detalhes de seus delicados bordados em pedraria, miçangas e lantejoulas perdidos. Somente em agosto de 1976, o frágil e desfalcado acervo encontrou finalmente lugar para receber a acomodação e descanso há 20 anos esperados. Além do fato de até hoje estar em local pequeno, improvisado e temporário - isso mesmo, temporário -, no Museu Carmen Miranda falta de tudo, principalmente recursos para o caro restauro profissional de inúmeras peças e se encontra fora do circuito turístico do Rio de Janeiro para maior (e melhor) visitação. A luta por uma exposição decente e condizente com a celebridade que lhe dá nome é constante. Para sobreviver, depende dos parcos mas preciosos recursos que a FUNARJ - Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio de Janeiro lhe dedica, em meio à salvaguarda de muitos outros projetos culturais que são responsáveis pelo estado, e das singelas mas sinceras doações coletadas pela AAPN - Associação dos Amigos da Pequena Notável. Quem tiver interesse e curiosidade, numa visita ao museu, se surpreenderá ao saber quantas peças originais restaram no atual acervo quando comparadas com o de 1956... Muito infelizmente, em 20 anos ninguém conseguiu fazer com que a abertura física do Museu Carmen Miranda, de um prédio próprio, fosse efetivamente concretizada e a integridade de seu acervo devidamente garantida. Na contra-mão, outros fãs exaltados, como numa religião, mantém em suas residências tudo o que encontram e que já foi publicado e comercializado sobre a artista para venerá-la. Alguns mais privilegiados possuem peças originais de Carmen de procedência não-oficial e desconhecida... Para citar apenas um exemplo, o colecionador Ricardo Kondrat possui em seu acervo pessoal, o qual chama de mini-museu, o que contabilizou em cerca de 4.000 peças, adquiridas sem economia por 30 anos e que pretende manter crescendo. Sua admiração pela artista é tamanha que, em consideração, a própria família Miranda da Cunha já hospedou junto a si o colecionador paulista em suas idas ao Rio de Janeiro para reverenciar seu ídolo favorito e lhe doou peças originais antes pertencentes à cantora, para enriquecer ainda mais sua coleção. Vejam bem, possui peças originais, porém doadas pela própria família. O amor é tanto que Ricardo instituiu o dia 5 de agosto, aniversário de morte de Carmen Miranda, seu feriado particular. - "Nesse dia não vou ao trabalho e só me dedico a rezar e homenagear a cantora", revela. Exagero para alguns, nenhum para outros. Afinal, seus superiores a isso nada se opõem e respeitam sua decisão. ![]() Ricardo Kondrat em seu mini-museu com a repórter Maria Manso (Globo) Fruto de uma reportagem sobre o meio século do desaparecimento da artista, o professor de educação artística Marcelo Cafiero do Rio de Janeiro, surpreso pelo fato de ver nada oficialmente programado no país para o evento, provou ser não menos fã ao levar à suas turmas de adolescentes, consternado pela injustiça à artista, o projeto de esses usar Carmen Miranda como tema em seus trabalhos de desenhos, pinturas, colagens e tapeçarias. Depois de se inspirarem vendo suas fotos, seus filmes e ouvindo seus discos, os jovens trouxeram, conforme Marcelo é alegre em dizer, resultados muito acima do esperado. Todos conseguiram capturar o eterno sorriso e carisma de sua mais nova diva, através de suas típicas cores e alegorias (fotos dos trabalhos podem ser vistos neste site na seção Galeria/Musa para Pintura, Caricaturas e Desenhos). O detalhe mais relevante fica no fato de eles não terem tido a oportunidade de conhecer a Pequena Notável antes do projeto. Especialmente para participar das homenagens que previa iriam acontecer no Brasil, o fã Ron Wakenshaw veio direto da Austrália ao Rio de Janeiro. Demonstrou dessa maneira seu amor por Carmen, o qual existe há mais de 60 anos. Lá do outro lado do planeta, Ron conseguiu da prefeitura de sua cidade que um bosque fosse batizado com o nome de sua artista favorita. E mantém aberta à visitação sua coleção com peças adquiridas pelas seis décadas. A seu museu particular deu o nome de "Casa de Carmen Miranda", em português mesmo. De um lado decepcionado com a falta de homenagens oficiais à sua musa e pelas tristes condições do museu brasileiro, por outro Ron se mostrou feliz em estar presente à missa oferecida por Iberê Magnani, de conhecer alguns lugares por onde a Pequena Notável passou e de ir visitá-la em sua eterna morada onde nenhuma homenagem por parte de autoridades e empresários foi encontrada. No cinqüentenário da morte da estrela, não fosse a lembrança da mídia impressa e televisiva surtindo importante efeito, como se pode ver nos artigos reproduzidos aqui neste site, e de fãs isolados, como a de Iberê Magnani, ex-diretor do Museu Carmen Miranda no Rio, que ofereceu missa em sua homenagem na mesma igreja a qual Carmen costumava freqüentar na juventude, a data teria simplesmente passado despercebida. A sina de Carmen Miranda em ser tratada com descaso pela influente elite brasileira mais uma vez reapareceria, em data extremamente marcante. E o governo brasileiro, que 65 anos antes a recebia como Chefe de Estado em carro aberto em desfile pelo centro da cidade, após sua temporada de sucesso absoluto na América do Norte para lá representar nosso país, agora não lhe dava as devidas homenagens pelo grande trabalho que aquela notável pequena mulher fez, mesmo empregada e muito bem paga por estrangeiros por quinze anos, sem precisar fazer política, e constantemente incluindo coisas do Brasil e em português em seu repertório. Em sua última aparição ao público, poucas horas antes de seus fãs e admiradores para sempre fisicamente deixar, Carmen Miranda falou em português sem sotaque em um programa de televisão americano, e cantou um clássico de Waldir Azevedo, o baião "Delicado", com muita ginga, bossa e deliciosa brasilidade - suas marcas registradas. Nunca se vingou da elite brasileira. Jamais se esqueceu das boas coisas e da boa gente do Brasil. Tudo o que queria era ser amada. E conseguiu, quase inteiramente. As imagens desse adeus involuntário, testemunhas da alta apreciação que recebia daquele povo, resistiram ao tempo e à força contrária do homem. Dos cinco filmes de que participou no Brasil, entre 1932 e 1939, somente "Alô Alô Carnaval" se encontra inteiro e restaurado, embora apenas para exibição estritamente particular. De seu último filme aqui no Brasil, "Banana da Terra", sobrou apenas o número em que Carmen canta "O Que É Que A Baiana Tem" e nos apresenta a Baiana estilizada que com carinho levaria a partir de então em sua bagagem para conquistar o mundo. Se existe o sentimento de inveja cultural, sem pudor poderíamos senti-lo em relação às culturas européia e americana, de onde mesmo velhos, ou melhor, antigos filmes da fase ainda muda do cinema podem hoje ser encontrados e apreciados. Dos catorze filmes americanos de Carmen, todos estão em terras americanas disponíveis em vídeo. Aqui, apenas alguns deles comercializados. O sucesso da Pequena Notável é o diamante que permanece brilhando, lutando para resistir ao tempo e à força do homem. Seus discos continuam, para felicidade dos que ela admiram, à cada ano sendo relançados e vendidos pelo mundo. A moda e estilo de vestir que criou continuam sendo usados como referência. Seu modo de se apresentar copiado. Seus pés, mãos e assinatura estão eternamente marcados na Calçada da Fama em Hollywood, consagrada entre celebridades da época em que lá esteve. E, depois de tudo o que aqui foi exposto, se torna inevitável não nos questionarmos sobre até quando a lenda que passou a mito conseguirá não cair na realidade do esquecimento entre nós, como ocorreu com tantos outros grandes mitos brasileiros do passado. O Brasil não importou ainda o bom hábito estrangeiro de cultuar os personagens que a seu modo escreveram a rica história cultural de seu país. Cultuamos apenas a memória recente. E o privilégio e o mérito recebem, apenas, expressivos e merecedores políticos, cientistas, intelectuais e impressionantes corredores de fórmula um e jogadores de futebol. Todos homens. Que representante do sexo feminino é reverenciada e tem sua memória constantemente preservada no Brasil? Se de um lado a preservação da obra e dos objetos da artista preocupa os fãs de Carmen Miranda, do outro também lhes preocupa a forma de manter preservados seu nome e importância cultural, que correm o risco de ser perdidos pelo tempo caso os que também com isso se preocupam não se juntem à causa. A mesma sensata preocupação é estendida a tantos outros nomes do meio artístico brasileiro do passado que compuseram seu painel cultural, das mais diferentes áreas, por seus fiéis admiradores e que se desesperam em vê-los já esquecidos e não reconhecidos pelas novas gerações. Os cidadãos brasileiros do futuro ficam assim, à cada dia, culturalmente mais pobres. Mesmo depois das inúmeras vezes em que foi usado como referência através dos anos em outras obras, vale mais uma vez aqui parafrasear Antoine de Saint-Exupéry - "Os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer: Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". No outro lado do interesse em lucros nas vendas com produtos que levam Carmen como tema, um pedido de perdão, ou uma reação tardia mas bem-vinda e satisfatória, encontram-se à espera de ser recebidos. E esperemos, então, que o centenário do nascimento de Carmen Miranda esteja envolto às mais diversas homenagens à altura de sua grandeza. Seus verdadeiros e fiéis fãs certamente se dedicarão a isso. Uma jóia preservada se torna eterna. Novembro de 2005 ![]() e-mail: donisacramento@interair.com.br |