ZÉ CARIOCA - BEM VIVO
ESTÁ EM SÃO PAULO

Revista "Manchete"
Rio, 1977

Parceiro de Carmen Miranda, ele inspirou Walt Disney na criação de um personagem famoso, veio ao Brasil para o carnaval e comemorar seus 75 anos

Reportagem de Celso Arnaldo Araújo


José (Carioca) do Patrocínio foi para os EUA em 1939. Apareceu em filmes e shows. Hoje, com 75 anos, vive bem por lá, do som de sua música. (Foto de Gino Lovecchio)

O homem que inspirou Walt Disney na criação de uma de suas mais populares personagens — o malandro Zé Carioca — veio comemorar seu 75º aniversário no Brasil, de onde saiu há 38 anos para fazer a América como músico e figurante de cinema. José do Patrocínio Oliveira, ex-classificador de cobras, lagartos e insetos do Instituto Butantã, foi um dos que, sem querer, ajudaram a formar no exterior a imagem de um Brasil exclusivamente tropical, com muita banana, araras e papagaios, selvas e indolèncias. Mas os americanos continuam na deles. E Zé na sua. é daqueles que contam a piada e começam a rir antes que os ouvintes

arrisquem um sorriso. E dos que dizem "essa é boa", após as piadas alheias — que, imediatamente, passam a fazer parte de seu inesgotável repertório. É, enfim, um brasileiro. Que não perdeu nem um pouco de sua brasilidade em quase 40 anos nos Estados Unidos. Não tem sotaque ianque. Em compensação, seu inglês é de locutor da rádio de Pirapora Mirim lendo (resfriado) o noticiário da BBC de Londres. Não importa. Ele sempre se fez entender perfeitamente. E hoje está plenamente integrado no país de seus sonhos, os Estados Unidos: não troca sua modesta casa em Hollywood por nenhuma mansão do Morumbi. Lá, tem privilégios tipicamente americanos. Por causa da idade, paga meia entrada em cinema, no metrô, em teatros. É um senior citizen. Aqui, seria apenas um velho músico, provavelmente desempregado, vivendo de recordação e caridade dos amigos. Por isso, vai morrer lá. Zé Carioca voltou ao Brasil para o carnaval, como faz com relativa assiduidade desde que deixou o país em 1939. José Bonifácio de Oliveira — o Boni da Clobo — mandou-lhe a passagem. Muito religioso, Zé foi logo à igreja de Nossos Senhor do Bonfim, em Salvador, agradecer a oferenda. Ele chega para a entrevista carregando uma pasta, não das 007; é antiga, descascada, bojuda. Dentro, fotografias tiradas no último Natal, em sua casa. Zé abraçado a Sergio Mendes, a Boni, à terceira mulher, americana, bem mais jovem que ele. Orgulhoso, mostra também um folheto sobre a grande invenção de seu filho, afilhado de Carmen Miranda, que é técnico eletrônico: um aparelhinho de bolso que pode contatar qualquer telefone em qualquer parte do mundo. Desde, é claro, que se esteja nos Estados Unidos.

Zé tem muitas histórias para contar. Tantas que costuma misturar estação, embaralhando nomes e situações. A memória continua firme. Sem que lhe seja pedido, começa a enumerar, uma por uma, as linhas de bonde que existiam na década de 30 em São Paulo, com seus respectivos nomes. Ele voltou a São Paulo inúmeras vezes desde 1939, mas suas lembranças se limitam àquela época. Quando passeia de carro pelas ruas paulistas, fica de olho nas menininhas. E antes da inevitável observação sobre seus dotes físicos, comenta, invariavelmente: essa não tinha nascido em 39! A passagem do tempo parece deslumbrá-lo. Mas nele não exerce qualquer influência. O rosto de Zé Carioca quase não mudou nos últimos 30 anos e é inacreditável que tenha 75 anos. Está nos documentos: Joe Carioca de Oliveira (assim ele está registrado nos Estados Unidos) nasceu em 11 de fevereiro de 1902. Paulista de Jundiaí, tornou-se funcionário público ainda adolescente. Entrou com o salário de 100 mil réis por mês no Instituto Butantã, numa função que não atraía ninguém: classificador de cobras. Zé aprendeu o nome científico de dezenas de répteis. A maioria deles dá samba: crotaloterrificus é o da cascavel. Mas era

um emprego público. Traduzindo: férias, licenças, folgas em profusão. Nos seis meses por ano de licença a que tinha direito, estudava música. De ouvido. A mãe queria que aprendesse violino. Aprendeu. Mas só para satisfazer a mãe. Seu negócio eram os instrumentos que pudessem refletir seu amor pelas coisas americanas, como os filmes de Fred Astaire e o jazz. Para defender um cacauzinho extra, assinava ponto na rádio Educadora, de Jundiaí. Já tinha então um conjunto: Zezinho e seu regional. Corte. Em 1932, Zé está tocando na Orquestra Columbia de São Paulo, ganhando um conto de réis por mês. Era a a maior soma que já entrara em seu bolso. Uma noite, bolso cheio, foi acompanhar os paulistas em sua diversão preferida da época: ver a partida do luxuoso trem da Vera Cruz para o Rio, o que equivaleria a assistir hoje aos aviões decolarem de Congonhas. Era coisa de paulista. Zé não se contentou em apenas assistir. Apanhou o trem. E desembarcou no Rio na manhã seguinte. Começava a virar carioca. Gostou e ficou. Morava na pensão de uma portuguesa, dona Nené, na Rua Correia Dutra, onde se encontravam, já há algum tempo, Batista Jr., Linda e Dircinha Batista. Ainda hoje, ele se lembra que o velho Batista costumava jogar um copo de água na parede do quarto, todas as noites, para ver que bicho dava. Lembra-se também que às vezes atrasava o pagamento da pensão, embora acumulasse dois empregos: músico da rádio Mairynk Veiga e da Escola Eldorado. E

Zé Carioca, o quarto da esquerda para a direita, trabalhou em "Amantes de Férias", comédia musical com rumbas e boleros, no estilo de Carmen Miranda e Bando da Lua, realizado pela Fox em 1959.
continuava ganhando no Butantã, onde se licenciara, "para tratar de assuntos particulares". Seria a décima-primeira de uma série de 20 licenças com vencimentos.

Na época, Zé foi a imagem do brasileiro
Antes de se tornar definitivamente o Zé Carioca, aconteceram ainda algumas peripécias. Seu mentor no Rio, César Ladeira, nomeado diretor artístico do Cassino da Urca, o filet-mignon para os músicos da época, convidou-o para tocar na boate África, no cassino. Viajou para Buenos Aires, a bordo do Augustus, com Carmen Miranda. Finalmente, chegou aos States. Havia um pavilhão brasileiro em Nova Iorque, uma espécie de exposição tropicalista de coisas nossas. A música não podia faltar. Nem músicos. Não era preciso ser músico extraordinário, apenas correto. Durante três meses, Zé pediu ao garçon spaguetti com meat balls, que era horroroso mas fácil de pronunciar. Depois, aprendeu a dizer hotdog e o cardápio mudou. Mas, nessa altura, já estava definitivamente deslumbrado pelos Estados Unidos. Era o que tinha visto nos filmes, todo mundo falando inglês. Em pessoa, ouviu Benny Goodman, Tommy Dorsey e geniais crioulos do jazz. Na mesma cidade, na mesma época, Carmen Miranda e seus moon-band boys vendiam o Brasil de bananas e balangandãs. Ivo, um dos músicos, se mandou: não queria ser apenas um dos boys de Carmen. Zé não tinha esse tipo de prurido.

Aceitou na hora o lugar de Ivo. Escritório de Walt Disney, linha direta com o gabinete da presidência da República. Roosevelt de um lado, Disney do outro. O presidente: " Walt, precisamos fazer um filme de boa vizinhança com nossos irmãos da América Latina. Você sabe, a guerra vem aí." Disney mandou prontamente uma equipe ao Rio pesquisar personagens. Faltava achar um tipo brasileiro para compor o trio com Pato Donald, o americano, e Panchito Pistolas, o mexicano. E Zé em Nova Iorque, tocando seu banjo. No Rio, a equipe de Disney pensou em Grande Otelo como o malandro carioca. Mas foi uma idéia fugaz, por motivos óbvios. Eles voltaram aos States sem ter encontrado ninguém em quem se inspirar. O filme já tinha até nome: nos Estados Unidos se chamaria The Three Caballeros; no Brasil, Você já foi à Bahia; em Portugal, Caixinha de Surpresas. Zé circulava pelos estúdios de Disney, emprestando a voz para alguns desenhos. Quando alguém prestou atenção nele, exclamou como o Quem-Quem do Chico Anísio: "É ele!" Era mesmo. Ninguém mais brasileiro — pelo menos o brasileiro que interessava divulgar. Tipo irrequieto, gozador, moreno, frenético, perfil de papagaio, Zé foi contratado por cinco anos. A partir daí, ele e o personagem do desenho animado e das histórias em quadrinhos passaram a se confundir. Zé Carioca — Joe, para os americanos — ganhou sua feição definitiva: um papagaio de camisa listrada e chapéu de palha. José do

Don Ameche, um freqüente galã em filmes de aventuras sul-americanas,canta para Zé Carioca e Nestor Amaral
(outro integrante do Bando da Lua).
Patrocínio mudou de nome e virou artista de cinema. O personagem ia fazendo sucesso, faturando alto, e seu inspirador fazia pontinhas em cinema. Além dos filmes de Disney — alguns com live animation, em que ele aparecia pessoalmente, ao lado do boneco — Zé fez um violonista de bar em Nasce uma Estrela, com Judy Garland, mas ninguém percebeu. Diz ter feito mais de cem filmes — era sempre o baixinho moreno, de bigodinho à la Afonso XIII, acompanhando ou fazendo fundo para artistas mais famosos. Bem ou mal, foi defendendo o da feira, dizendo frases como "vamos tomar uma cachacinha?". O contrato com Disney acabou, Zé continuou tocando aqui e ali, e o boneco dando marca para comestíveis, aparecendo em filmes, desenhos, livros e revistas. Ele nunca se queixou disso, talvez porque nunca tenha pensado seriamente em cobrar os direitos pela utilização do nome e da personagem. Afinal, pode-se alegar que a personagem nasceu primeiro e que Zé do Patrocínio era apenas um respaldo para dar mais realismo à figura.

Ele toca de tudo: do jazz ao samba de morro
De qualquer forma, ele nunca pensou em voltar ao Brasil, mesmo nos tempos magros. Trabalho nunca faltou. Hoje, de sua pasta preta ele tira seu cartão de apresentação: Zé and Lulu, continental music. Formando dupla com um violonista cearense também radicado há muitos anos nos

Estados Unidos, Zé toca num restaurante chamado La Renaissance e em festas particulares. A continental music quer dizer que eles tocam de tudo, tarantellas, tango, jazz, valsas. Até músicas brasileiras. Ele se justifica dizendo que público de restaurante é muito eclético e exige todos os gêneros. Ganha 250 dólares. "Por dia?" "Por semana." Não é muito, mas Zé recebe também o social security, outro privilégio dos senior citizen — uns 400 dólares por mês. Muito religioso, carrega no pescoço um rosário de santinhos do mundo todo. E vai à mesma igreja que freqüenta há quase 40 anos, aquela onde Carmen Miranda confessava e rezava, antes de vencer nos States. Ele pensa em trazer a mulher para o carnaval. Alguém observa: seria o mesmo que trazer sanduíche num banquete. A gargalhada é sonora. "Essa é boa!" E ficou pra ele.