MARÍLIA PÊRA REVIVE A PEQUENA NOTÁVEL
NO SHOW

"A VIDA FABULOSA DE CARMEN MIRANDA"

Rio, 1972


Reportagem de Atenéia Feijó, redação de Ruy Castro, fotos de Milton Carvalho e Sebastião Barbosa, para a Revista Manchete - nº 1031
Rio de Janeiro, 27 de janeiro de 1972

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O impressionante sucesso dos seus velhos filmes, atualmente, em Londres e Nova Iorque, mostra que o mundo nunca esqueceu Carmen Miranda. Ela representou, com seus turbantes e balangandãs, com a sua voz, que parecia se prolongar por cada centímetro de seu corpo, e com a sua música, toda uma época em que inocência e malícia pareciam se confundir.
No Rio, uma atriz excepcional, Marília Pera, revive magistralmente a personalidade e o dinamismo da cantora, para a saudade de seu grande público.

A idéia de um show sobre Carmen é antiga, mas nunca
pôde ser realizada: ainda não havia Marília Pêra

Você não sabe dizer quem é a maior. Se Carmen Miranda, a personagem do show, o mito, a Garota Notável do rádio e dos cassinos, a Brazilian Bombshell da Broadway e de Hollywood, ou Marília Pera, que conseguiu interpretá-la de forma excepcional. Durante o espetáculo, você esquece Marília Pera e só pensa em Carmen, tal é a força com que a atriz recria a cantora. Marília não imita - revive. Para chegar a isso, contou não só com o seu talento histriônico inato, mas também com um estudo minucioso dos tiques, trejeitos e da graça de Carmen. Marília tinha 12 anos quando Carmen Miranda morreu. Não pôde vê-la ao vivo. Mas, seus pais e sua avô a viram e lhe falavam dela. Nos anos 30, todo o Brasil idolatrou Carmen, e, nos anos 40, meio assustadas ou incrédulas, as pessoas ouviam falar de seu impressionante sucesso nos Estados Unidos. Hoje, 16 anos após a sua morte, o mito de Carmen Miranda renasce com força total, nas águas do movimento nostalgia que assola a América. Não são apenas os seus filmes, como The Gang's All Here/Entre a Loura e a Morena, que voltam ao cartaz e provocam filas de dar voltas ao quarteirão (os 50 primeiros espectadores de cada sessão ganham um cacho de banana!), mas as roupas coloridas, os sapatos de salto alto e os balangandãs - tudo isto evidencia que também os americanos têm saudade de Carmen.



Um espetáculo de luzes e cores, com a cópia fiel das roupas de Carmen, muita música e pouca fala. Toda a carreira da Pequena Notável, desde o Taí, é revivido dinamicamente por Marília.

Para recriar toda a graça e vivacidade de Carmen, só mesmo uma mulher com o dinamismo de Marília Pera. Sua agilidade quase sobre-humana lhe permite mudar de roupa 11 vezes num espaço de tempo de uma hora, usando cada uma durante cinco minutos em média, tendo às vezes só 20 segundos para a troca. Só por isto ela já poderia tomar emprestado o nome que consagrou Carmen nos Estados Unidos: a Brazilian Bombshell.

- Para mim, ela foi um fenômeno em comunicabilidade - diz Marília. Ouvindo seus discos para tentar reproduzir o seu estilo, eu tinha a impressão de estar vendo Carmen Miranda. Foi exatamente por isso que me preocupei em ouví-los pela ordem, para acompanhar sua evolução. No começo de sua carreira, aqui no Brasil, os gestos de Carmen eram muito mais espontâneos, mais puros, mais simples. Vi num documentário a Carmen cantando O Que É Que a Baiana Tem?, antes num filme brasileiro e depois num americano. A diferença é que, no segundo, eles ficaram mais rebuscados, quase caricatos. Ela já estava entrando na máquina, sendo massacrada. E digo massacrada fisicamente, pelos contratos que assinava e não conseguia cumprir, pelas pílulas para dormir ou para acordar. Tento mostrar tudo isso no show.

Marília mostra isso e ainda mais. O espetáculo contém a mesma euforia de um musical americano,com sua coreografia ágil e elástica, com os cenários nostálgicos e os impressionantes figurinos de Arlindo Rodrigues. Para o diretor Maurício Scherman, a idéia de montar um show baseado na vida de Carmen Miranda é antiga. Sempre faltara, no entanto, a mulher que soubesse transmitir como Marília Pera, em cada centímetro do corpo, a mesma vibração da cantora.





Um compositor chamado Josué de Barros, de violão em punho, foi à casa dos pais de Carmen pedir-lhes que ela cantasse num show. Bem portugueses, eles hesitaram, mas enfim concordaram.





No começo, Carmen só queria cantar tangos.
Foi preciso que ela gravasse Taí para criar
um novo estilo, bem brasileiro.




De fraque e cartola, Carmen se despede do seu público, antes de ir para a América.




Quatorze anos depois, ela voltou e cantou um samba de morro, desmentindo que tivesse se americanizado.
(*)


Os personagens de Walt Disney estavam em moda na época, mas o grande sucesso de Carmen começou nos luxuosos filmes musicais americanos.



As roupas de Carmen, sensacionais para a época, são hoje a última moda, dando a todo o show um surpreendente toque de atualidade.









Matéria e fotos
publicadas
na revista
Manchete
nº 1031 - Rio,
27 de janeiro
de 1972
* O episódio, sobre a má e injusta recepção onde se alegou que Carmen havia se americanizado, de fato ocorreu no dia 15 de julho de 1940, cinco dias após ela ter chegado de sua primeira viagem aos Estados Unidos. No dia 12 de setembro de 1940, volta ao Cassino da Urca para, dessa vez, receber a merecida consagração apresentando o clássico "Disseram Que Voltei Americanizada".