O ESTADO DE S.PAULO - Sábado, 1 de junho de 2002


'Alô Alô Carnaval' reestréia em grande estilo no Rio

O compositor Braguinha compareceu ao Cine Odeon, na quinta, para o relançamento, em cópia totalmente restaurada, do musical antológico em que as irmãs Carmen e Aurora Miranda aparecem juntas no clássico número 'Cantores do Rádio'
Reprodução
Aurora e Carmen Miranda cantam ‘Cantores do Rádio’ na cena final de ‘Alô Alô Carnaval’: comédia é apontada como precursora das chanchadas
SUSANA SCHILD
Especial para o Estado

RIO - Na platéia do cinema Odeon, na quinta-feira, um senhor de cabelos brancos, mais de nove décadas bem vividas, recebeu a maior ovação da noite: João de Barro, o célebre Braguinha, um dos tesouros da cultura popular, co-autor do roteiro e de várias músicas de Alô Alô Carnaval!, mesmo andando com dificuldades, compareceu à pré-estréia da cópia restaurada do clássico de 1936 dirigido por Adhemar Gonzaga.

Na época, o jornalista e depois acadêmico Raymundo Magalhães Júnior escreveu em A Noite: "Alô Alô Carnaval!, o melhor filme-revista até aqui produzido no Brasil, é aquele em que o som se apresenta mais puro e a fotografia mais nítida e luminosa." Depois de um minucioso trabalho de restauração bancado pela Petrobrás BR (R$ 270 mil), uma parte respeitável das qualidades originais voltaram à tela. "Meu pai dizia que a melhor forma de se assistir a um filme era se colocar na época em que foi feito", avisou Alice Gonzaga, atual presidente da Cinédia, produtora do filme.

E que época! O desfile de astros e estrelas do rádio no estilo filme-revista propiciam uma impagável viagem no tempo - de Carmen Miranda a Francisco Alves, de Mário Reis ao Bando da Lua, de Dircinha Batista às Irmãs Pagãs. A relação dos compositores escalados não é menos impressionante e traz Noel Rosa, Heitor dos Prazeres, Lamartine Babo, Antonio Nássara, Alberto Ribeiro, além do já citado João de Barro.

Foi uma noite bonita. Casa lotada - Ruth de Souza, Norma Bengell, Luiz Carlos Lacerda, Carla Camurati, Maurício Sherman, Rosa Maria Murtinho, Sylvio Back, Isabelita dos Patins e o presidente da Rio Filme Arnaldo Carrilho - estavam entre o público que reagiu como nos programas de rádio, aplaudindo estrelas de sua preferência, e que veio abaixo na cena final, quando Carmen e Aurora Miranda cantam a célebre Cantores do Rádio. A noite teria sido ainda mais bonita se não fosse o fantasma do fechamento da Cinemateca do MAM pairando sobre todos aqueles que se preocupam com a preservação da memória cinematográfica do País. Ilda Santiago diretora do Grupo Estação, que tem o Cine Odeon como seu cartão-de-visitas, abriu a noite e definiu o fim da Cinemateca do MAM como um assassinato cultural para a cidade e enorme perda afetiva.

Enquanto no saguão, antes e depois da sessão, circulava um abaixo-assinado contra o fechamento da instituição, na tela do cinema assistia-se à evidência da importância da preservação cinematográfica e o drama que seria a sua perda. E Alice Gonzaga avisou que há uma lista de filmes a seguir o mesmo caminho, desde que haja verbas.

Cassino - A história de Alô Alô, como se sabe, é um fiapo: dois "revistógrafos" duros, interpretados por Barbosa Júnior e José Pinto, pretendem montar o espetáculo Banana da Terra e procuram um empresário (Jayme Costa) no Cassino Mosca Azul. Após algumas contrariedades ingênuas, o espetáculo acontece, em cenário com telões pintados por J. Carlos. A fotografia vem assinada por Antonio Medeiros, Victor Ciacchi e Edgar Brasil, o genial criador das imagens de Limite, cinco anos antes. Virtuosismos visuais, no entanto, estavam fora de questão nesta comédia apontada como precursora das chanchadas. Os números musicais eram filmados no estilo one shot, one cut, ou seja, sem interrupções, por duas ou três câmeras fixas para evitar que ruídos fossem captados pelos microfones escondidos nas roupas dos artistas. A cópia restaurada traz piadas contadas por Jorge Murad e um número de sonoplastia por Pinto Filho.

Nos bastidores das filmagens, há também muitas curiosidades. Consta que o filme teria as únicas imagens em movimento de Lamartine Babo, ao lado de Almirante no número As Armas e Barões, ainda hoje, impagável. Ou: os números Querido Adão e Cantores do Rádio, interpretados por Carmen Miranda, estão entre os raros registros da cantora sem roupa de baiana. Em outro número antológico, o ator Jayme Costa se revela um pioneiro do transformismo ao comprimir o corpo robusto em um vestido longo, deitar lânguido sobre um piano e cantar uma paródia de Sonho de Amor, de Liszt, enquanto se abana com leque de plumas. Detalhe: a voz em falsete é do ídolo Francisco Alves, que não deu bola para a suposta ousadia da cena e gravou em playback. Aliás, o filme é pioneiro neste artifício, também usado com Heloísa Helena, no número Tempo Bom. Na restauração, a imagem foi trabalhada quadro a quadro e foi confeccionado um novo negativo de som com redução de ruídos Dolby e mixagem Dolby Sr., sem alterar o caráter do áudio mono original. Ficou supimpa.

Alô Alô Carnaval! terá pré-estréia em São Paulo no dia 6 de junho no Sesc Ipiranga e será exibido de 7 a 14 no circuito Espaço Unibanco.