pelo jornalista e historiador Abel Cardoso Junior (1938-2003)
Já meses antes do regresso de Carmen, alguns inconformados torciam o nariz ao êxito da cantora, que estaria projetando uma imagem negativa do Brasil.
A recepção popular nas ruas do Rio decretou o episódio do Cassino da Urca, no dia 15-7-1940, ao qual Carmen compareceu gripada e sem ensaiar, para honrar o compromisso assumido com Dona Darcy Vargas.
Naquele momento, o pretexto para castigar Carmen já não seria o de cantar "sambas negróides de mau estilo", mas o de se ter americanizado.
O repertório de Carmen continha então somente músicas em português e as gravações feitas nos E.U.A., bem como o filme rodado em Nova York, não tinham chegado ainda ao Rio, para apreciação.
No Cassino da Urca o pretexto foi a americanização do ritmo. Se antes era acusada de divulgar a nossa não recomendável música popular, agora era acusada de deturpar a nossa sagrada música popular, pela alteração do ritmo, como se a platéia da Urca tivesse preocupações nacionalistas. Na Urca, o artista brasileiro era exceção. O dinheiro do jogo permitia a vinda dos grandes cartazes internacionais.
A platéia não chegou a vaiar Carmen. Concedeu-lhe aplausos protocolares, que produziram dois efeitos em Carmen, além do choro e das entrevistas à imprensa.
Um efeito imediato. O de voltar o quanto antes ao palco da Urca, para mostrar que era a mesma Carmen. Outro, a determinação da artista em permanecer longe do Brasil por longos anos, adiando sempre a volta no temor de nova decepção. Temor que era sustentado pela leitura de críticas da imprensa brasileira sobre seus filmes, e pelo próprio tempo de ausência, que costuma alterar a preferência do público.
Carmen voltou à Urca dois meses depois. Ninguém, no entanto, poderia supor que estivesse fazendo suas despedidas artísticas do Brasil para sempre. Voltaria em 1954-1955 apenas como visitante.
PODE SER CONSIDERADA A SUA MELHOR NOITE!
CARMEN MIRANDA, MELHOR DO QUE NUNCA, ALCANÇA UM
SUCESSO INDESCRITÍVEL EM SUA ESTRÉIA NA URCA SAMBAS, BATUCADAS E MARCHAS, LANÇADAS PELA GRANDE CANTORA,
COM O CONCURSO DO BANDO DA LUA E DO GRANDE OTELO
UMA PROGRAMAÇÃO DE UMA SEMANA APENAS, QUE VAI REVOLUCIONAR A CIDADE
Nunca uma assistência tão brilhante correspondeu a uma estréia tão sensacional como a de Carmen Miranda ontem na Urca. Pode-se dizer, sem favor, que sua apresentação foi impecável. Tudo esplendidamente cuidado: os cenários, a escolha das músicas, os acompanhadores, as orquestras. Finalmente precedida de um lindo bailado brasileiro, aparece Carmen Miranda. E interpreta, melhor do que nunca, as canções de seu novo repertório. "O Dengo da Nêga", "Voltei p'ro Morro", "Os Quindins de laia", são alguns dos grandes sucessos da estréia de ontem. Cada canção era coberta de aplausos e pedidos de bis. Carmen Miranda esteve, em verdade, magistral. Uma voz esplêndida, que melhorou muitíssimo sobre apresentações anteriores. Um ritmo bem marcado e bem brasileiro. Muita graça, muita brejeirice, muito equilíbrio, muita elegância. Carmen Miranda confirmou, superando, suas qualidades anteriores. O Grande Otelo foi um "partner" excelente. O brilho da estréia de ontem excedeu a todas as expectativas. Carmen Miranda iniciou, ontem, a sua semana triunfal na Urca. (Jornal "Diário de Notícias", Rio 13-9-1940)
Texto extraído do livro
"Carmen Miranda - A Cantora do Brasil"
de Abel Cardoso Junior
Edição Particular do Autor - 1978